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Pedro Magalhães

textos do Público, organizados sem participação do próprio autor

sábado, fevereiro 08, 2003

Uma Farsa 

Público, Sábado, 08 de Fevereiro de 2003
Façam comigo um pequeno exercício de imaginação. Imaginem que, dentro de semana e meia, Hans Blix vai ao Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) dizer que o Governo do Iraque continua a não colaborar devidamente com os inspectores. E imaginem também que, no dia seguinte, Saddam Hussein fazia uma comunicação ao mundo, anunciando finalmente a sua disponibilidade incondicional para o cumprimento total das resoluções 687 e 1441 do CSNU. Imaginem que, pouco tempo depois, Blix recebia um novo relatório do Iraque, que confirmava os argumentos apresentados por Colin Powell na passada quarta-feira e dava toda a informação necessária para que se procedesse à destruição de todas as "armas de destruição maciça" e dos meios necessários para as produzir existentes no país.
Imaginem ainda que, nos meses seguintes, essa destruição seria levada a cabo e confirmada inequivocamente por inspectores que disporiam de liberdade de movimentos e acesso a todos os locais e informadores. A partir daqui, o Iraque continuaria, em cumprimento da resolução 687, a enviar declarações de dois em dois anos acerca do seu (não) rearmamento, cuja veracidade poderia ser verificada por futuras inspecções, limitadas "apenas" pela capacidade de "inspeccionar" um território com 437.072 quilómetros quadrados de extensão. Seguir-se-ia, obviamente, o levantamento das sanções. E assim se evitaria uma guerra de consequências imprevisíveis. Certo?
Errado. A confirmação vem de fonte insuspeita: Philip Bobbit, democrata, director do Conselho Nacional de Segurança durante a presidência de Bill Clinton, num debate publicado no último número da revista inglesa "Prospect". Segundo Bobbit, o verdadeiro problema não é o da verificação imediata do desarmamento iraquiano. O problema é que um regime com acesso a dinheiro do petróleo pode, com facilidade, voltar a rearmar-se após terminadas as inspecções. Assim, "mesmo que Saddam obtivesse um 'certificado de saúde' por parte dos inspectores, isso só confirmaria a loucura da actual estratégia de inspecções, porque significaria também que os inspectores acabariam por ser retirados, as sanções levantadas e o Iraque ficaria livre para se rearmar com as armas mais mortais que um Estado rico poderia comprar".
À luz deste instrutivo vislumbre do que é o pensamento estratégico americano sobre a questão do Iraque, a comunicação de Colin Powell ao CSNU da passada quarta-feira e as posteriores reacções dos restantes membros ganham os contornos de uma farsa, representada unicamente para consumo das opiniões públicas nacionais. Assim se revela, antes de mais, que as resoluções do Conselho, o seu cumprimento ou não pelo Iraque e o trabalho dos inspectores são totalmente irrelevantes para o curso dos acontecimentos. O principal objectivo dos Estados Unidos não é o de garantir o cumprimento das resoluções do CSNU, nem é indispensável que se aprove uma nova resolução que apoie a invasão do Iraque. O objectivo americano é, tão-só, o de garantir a mudança do regime iraquiano, convertendo-o num protectorado ocidental, sem que isso implique custos políticos domésticos. Aliás, vai-se ouvindo com insistência que a verdadeira razão que levou a que Bush ainda tentasse passar a decisão da invasão pela ONU foi a insistência de Karl Rove, consultor político do Presidente, em face de sucessivas sondagens que indicavam a preferência dos americanos pela aprovação das Nações Unidas. Mas apresentadas agora as "provas" por Powell, um veto do CSNU a uma invasão imediata apenas servirá para legitimar a decisão perante a opinião pública americana. Afinal, pelo menos, tentaram.
A partir do momento em que a estratégia do jogador dominante está assim definida, resta aos restantes adaptarem-se. França e Alemanha têm também um papel nesta farsa que, aliás, estão a desempenhar com gosto. A acreditar numa sondagem recente feita pela Gallup International em 41 países de quatro continentes, não há um único (incluindo o Reino Unido) onde exista uma maioria dos cidadãos a favor de um ataque unilateral americano. Mais: em 22 deles (incluindo Portugal, Espanha, Alemanha, França e Luxemburgo) há maiorias absolutas que se opõem a um ataque com ou sem aprovação da ONU.
Logo, a partir do momento em que se percebe que a estratégia americana é derrubar o regime dê por onde der, nenhum país democrático cuja opinião pública se oponha maioritariamente à invasão tem quaisquer incentivos para apoiar os Estados Unidos. Aqueles que genuinamente acreditam que o Iraque seja uma verdadeira ameaça sabem que o problema vai ser resolvido, sem que tenham de incorrer em custos políticos internos. Para os que não acreditam em semelhante coisa, também já não há nada a fazer, e há sempre algo a ganhar na política doméstica. Seja como for, no Iraque, todos acabarão por cumprir o seu papel habitual: os americanos partem a loiça, e os europeus passam os cheques para a reconstrução. Porque os interesses estratégicos e económicos a manter na região não são apenas americanos, e esta é a única maneira que a Europa tem de os procurar satisfazer.
A terceira trupe que participa nesta farsa é a dos países que assinaram a "carta dos nove". Tendo em conta os já mencionados dados de opinião pública, a adesão de Portugal e Espanha poderia parecer irracional. Mas não é. Primeiro, a carta não compromete nenhum deles a uma adesão futura e incondicional aos Estados Unidos, nem colide com o desejo - que já sabemos ser puramente cerimonial - de uma resolução do CSNU. Segundo, como demonstrava Vasco Pulido Valente num artigo recente, ela joga na perfeição com a necessidade de demarcação em relação à supremacia do "eixo franco-alemão", especialmente em vésperas de reforma institucional da UE. Terceiro, ao contrário do que sucederia na Alemanha, nenhum dos primeiros-ministros que assinou a carta vê a estabilidade de uma coligação governamental posta em causa por esta declaração de apoio aos Estados Unidos. E finalmente, em Espanha e Portugal, mesmo com a oposição maioritária da opinião pública, Barroso e Aznar sabem que, ao contrário do que sucederia noutros locais, as respostas a sondagens não se convertem facilmente em acções de protesto com genuíno impacto, em países cujos cidadãos estão mais preocupados em manter o emprego do que com as tropelias de iraquianos e americanos.
Assim, todos ganham? Nem todos. Como em todos os jogos de póquer, há sempre alguém que tem de ser depenado. Esse alguém é Tony Blair. Na aliança incondicional que estabeleceu com Bush desde o 11 de Setembro terão jogado vários factores: convicções profundas, "tradições atlânticas", ou provavelmente, o desejo de adquirir valor acrescentado no contexto europeu. É até possível que Blair tenha querido, com suprema arrogância, "civilizar" a Administração Bush, jogando tudo na hipótese de que, sob a sua "liderança moral", todos se viessem a reconciliar alegremente na ONU. Sucede, contudo, que Bush não é "civilizável", e que os empregos de Jacques Chirac e Joschka Fisher não dependem de Blair para rigorosamente nada. Enterrado até às orelhas numa guerra que se fará com ou sem as Nações Unidas, resta-lhe pagar a factura junto de um eleitorado britânico onde, segundo a última sondagem da ICM Research (31 de Janeiro), dois em cada três votantes acham que Blair "se preocupa mais em apoiar Bush do que em seguir a opinião pública britânica". A "terceira via" é nisto que dá.
posted by Feyerabend  # 9:50 da tarde

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