<$BlogRSDUrl$>

Pedro Magalhães

textos do Público, organizados sem participação do próprio autor

sábado, março 29, 2003

Ilusões 

Público, Sábado, 29 de Março de 2003
Nos últimos tempos, circularam duas ideias acerca da guerra no Iraque que importa confrontar com os factos. A primeira é a de que estaríamos perante uma guerra em que o poder sofisticado e demolidor das forças norte-americanas e britânicas seria suficiente para garantir riscos e custos militares relativamente baixos. A segunda é a de que, para além de garantir a segurança da região e a satisfação dos interesses estratégicos americanos, uma motivação adicional e independente das anteriores para a deposição de Saddam Hussein seria a missão idealista de levar a democracia ao Médio Oriente.
A primeira semana de guerra já produziu danos consideráveis à teoria da "guerra rápida". Mas não foi por falta de avisos qualificados que se gerou a ilusão. Em Julho do ano passado, um artigo de Michael O'Hanlon e Philip Gordon (ambos da Brookings Institution) defendia a existência de "um argumento muito sério para derrubar [Saddam] caso continuasse a ocultar as suas armas de destruição e negar acesso aos inspectores das Nações Unidas", mas criticava também a forma como os defensores da guerra estavam fazer um esforço sistemático para minimizar os seus potenciais custos. As forças iraquianas, escreviam, "irão provavelmente retirar lições de 1991 e conduzirão uma guerra das cidades," através de forças especiais e milícias que temem a retribuição inevitável pelo terror que têm causado junto da população e, logo, não têm quaisquer incentivos para capitular.
Num artigo de fundo na revista Orbis, o mesmo O'Hanlon desenhava dois cenários alternativos para a potencial guerra urbana: o cenário "Panamá", do qual resultava a estimativa de um mínimo de 400 mortos entre as tropas aliadas; e o cenário "Mogadíscio", que elevaria a contagem total para cerca de 4000 baixas. Outro dos relatórios mais citados sobre as possíveis consequências de um guerra no Iraque foi o de Anthony Cordesman, analista do Center for Strategic and International Studies (CSIS). Cordesman definia o cenário mais optimista como aquele em que o conflito nunca duraria menos um mês e implicava uma longa lista de pressupostos, incluindo o rápido colapso do regime, guerrilha urbana limitada a casos esporádicos e apenas no núcleo sunita do país e ausência do uso de armas químicas ou biológicas. "Não é preciso grande visão" - adiantava Cordesman - "para perceber que esta lista é demasiado boa para ser verdade".
Obviamente, nada disto era estranho aos altos responsáveis militares americanos e britânicos, e o planeamento da ofensiva foi feito de acordo com estas e muitas outras análises. Também não nos deve surpreender que George Bush tenha anunciado aos iraquianos, no ultimato de 18 de Março, que "o tirano desaparecerá em breve" e que "o dia da vossa libertação está próximo", para agora se vir rapidamente juntar a Blair em declarações políticas acerca da "impossibilidade de prever a duração da guerra" e necessidade de a prolongar "o tempo que for preciso". Mas seria conveniente que aqueles que foram os maiores defensores desta guerra não se detivessem agora apenas na análise do papel dos meios de comunicação social na construção de um falso cenário de guerra rápida que, agora, estaria a ser inevitavelmente desmentido pelos factos. Porque foram eles e os governos que apoiaram, pelo que disseram e (principalmente) pelo que não disseram, quem mais contribuiu para a construção de semelhante ilusão.
A segunda e ainda mais perigosa ilusão é a de que a decisão de invasão do Iraque por parte desta administração americana foi de facto movida, entre outras coisas, por um desígnio idealista de democratização no mundo. Esta peculiar combinação entre os ideais da democracia e o uso descomplexado do poderio americano tem o seu fermento ideológico num conjunto de intelectuais neoconservadores que fundaram, em 1997, o "Projecto para o Novo Século Americano", e entre os quais se contam William Kristol, Francis Fukuyama e o actual sub-secretário de estado da Defesa, Paul Wolfowitz. Aliás, foi também deste círculo que originou uma famosa carta aberta de Outubro de 2001, publicada no Weekly Standard, onde se defendia que "mesmo que não existam provas que liguem o Iraque directamente ao ataque [do 11 de Setembro], qualquer estratégia dirigida à erradicação do terrorismo e dos seus patrocinadores tem de incluir um esforço determinado para remover Saddam Hussein do poder". Pelos vistos, o neoconservadorismo americano começa a moldar algum pensamento português sobre as razões da guerra. Como afirmava José Manuel Fernandes há dias no PÚBLICO, apesar dos riscos envolvidos em semelhante visão democrática, vale a pena incorrer neles em nome da possibilidade de "mudar o sentido da história" e melhorar as vidas daqueles que, hoje, ainda não beneficiam da democracia.
Do ponto de vista intelectual, há algo de extremamente atraente nesta visão. Ela convoca para sua defesa valores que são hoje mais universalmente legítimos do que em qualquer outro momento da história humana, com o fim de combater o tipo de justificações para a manutenção de regimes opressivos que se baseiam no relativismo moral ou na "impreparação" de determinado tipo de sociedades para a democracia. Num discurso de 27 de Fevereiro no American Enterprise Institute, Bush afirmava que "houve um tempo em muitos diziam que as culturas do Japão ou da Alemanha eram incapazes de suster valores democráticos. Bem, eles estavam errados". E acontece que estavam mesmo.
Sucede, no entanto, que é por ser tão intelectualmente atraente que esta vertente do neoconservadorismo americano é tão perigosa para as nossas democracias. Não é apenas pela forma como alimenta fantasias de que à putativa "democratização por ocupação" do Iraque se poderá seguir a do Irão, da Síria ou da Arábia Saudita, com a potencial instabilidade para a região que semelhantes fantasias já inspiram. É também porque, ao contrário do que sugere José Manuel Fernandes, o idealismo de Wolfowitz e o realismo de Rumsfeld não são optativos. Eles são duas faces da mesma moeda. Enquanto o segundo traduz a realidade da actuação americana, o primeiro dá-lhe um mero discurso legitimador, realisticamente adaptável às circunstâncias.
São essas "circunstâncias" que ditam que, na realidade, a administração americana não tenha elaborado até hoje qualquer espécie de planeamento concreto para o processo de reconciliação nacional e para a construção de instituições democráticas no Iraque, como demonstra o relatório "Post-War Iraq: Are We Ready?" elaborado no CSIS. São também as "circunstâncias" que explicam que, afinal, o idealista Wolfowitz seja o mesmo que, enquanto servia na administração Reagan, tenha defendido o apoio a ditadores como Ferdinando Marcos nas Filipinas e Chun Doo-hwan na Coreia do Sul. E que tenha sido também ele que, em Maio de 1997, elogiou perante o Congresso Norte-Americano "a liderança forte e notável do presidente Suharto", para logo em 1999 vir criticar as tentativas de colocar o General Wiranto no banco dos réus pelos massacres em Timor-Leste. Sobre o idealismo democrático dos neoconservadores americanos quando chegam ao poder, estamos conversados. Não se trata aqui de criticar moralmente a política externa americana, nem a de qualquer outro país. Trata-se de não cair noutros moralismos e ilusões que têm como único propósito ocultar a realidade das coisas aos cidadãos que, nas democracias, são supostos julgar as acções dos seus governos. Há algumas justificações sérias e plausíveis para esta invasão. A guerra rápida ou a democracia não fazem nem nunca fizeram parte da lista.
posted by Feyerabend  # 10:08 da tarde

Archives

02/01/2003 - 03/01/2003   03/01/2003 - 04/01/2003   04/01/2003 - 05/01/2003   07/01/2003 - 08/01/2003   10/01/2003 - 11/01/2003   11/01/2003 - 12/01/2003   12/01/2003 - 01/01/2004   01/01/2004 - 02/01/2004   02/01/2004 - 03/01/2004   07/01/2004 - 08/01/2004   03/01/2005 - 04/01/2005   04/01/2006 - 05/01/2006   05/01/2006 - 06/01/2006  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?