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Pedro Magalhães

textos do Público, organizados sem participação do próprio autor

sábado, novembro 22, 2003

Trabalho de Casa  

Público, 22 de Novembro de 2003

David Kay - director do Iraq Survey Group (ISG), uma organização com 1400 funcionários criada pela CIA - afirmou já perante o Congresso americano que, apesar de haver provas de que os iraquianos teriam eventualmente «a intenção de continuar a produção de armas nalgum momento no futuro», o ISG não chegou a encontrar quaisquer armas de destruição maciça no Iraque. Pode para além disso assegurar que, desde 1991, não existia qualquer programa de desenvolvimento de armas químicas no país. No passado fim-de-semana, o Weekly Standard ainda citava um memorando escrito pelo subsecretário de Defesa norte-americano onde se mencionavam abundantes (e até agora totalmente desconhecidas) provas de uma relação operacional entre o regime iraquiano e a Al-Qaeda. Mas a reacção a isto não pode deixar de ser céptica. O Weekly Standard está intimamente ligado aos sectores neoconservadores da Administração Bush. E, mais importante, esta suposta fuga de informação dá-se curiosamente apenas dois dias depois da revelação pelo Washington Post de que o ISG assegura que a única «possibilidade» (não comprovada) de contactos entre o regime iraquiano e os terroristas seria entre os Fedayeen e algumas figuras da Al-Qaeda, estando excluída a hipótese de reais transferências de recursos, pessoal ou armamento. Deixou de ser credível, portanto, que os Estados Unidos estivessem em «perigo iminente» que justificasse uma invasão do Iraque.

Havia, é verdade, uma segunda linha de argumentação. Uma invasão poria fim a um regime sanguinário, criaria condições para a instauração de um estado de direito democrático e serviria para criar um efeito de demonstração que espalharia a democracia numa região que lhe tem sido hostil. Ou, por outro lado, uma invasão permitiria substituir a pouco confiável Arábia Saudita pelo Iraque como regime de confiança dos Estados Unidos no Médio Oriente, garantir o acesso do mundo ocidental a indispensáveis recursos petrolíferos e instaurar ordem e estabilidade numa região que servia de viveiro aos mais variados grupos terroristas. Contudo, a ordem do terror de Saddam Hussein foi agora substituída pela desordem civil, social, política e militar do Iraque do pós-guerra. As vítimas diárias e os custos que produzem na opinião pública americana já levaram à aceleração dos calendários de transferência para um novo «poder iraquiano» de contornos completamente indefinidos.

Como já assinalou Pacheco Pereira, um dos mais convictos defensores portugueses da invasão, «tudo parece apontar para um falhanço de consequências devastadoras para este início do século». Não é fácil calcular o deve e o haver da invasão americana quando olhamos para as valas comuns de Saddam Hussein ou para os relatos impressionantes acerca das vítimas do seu regime. Mas é possível, e cada vez mais provável, que o preço último do caos desencadeado por esta invasão, no Iraque e fora dele, hoje e no futuro próximo, se venha a revelar demasiado elevado. A invasão terá assim sido um erro, fundamentado num logro («o perigo iminente»), legitimado por uma fantasia («a democratização do Iraque») de efeitos colaterais nocivos para a segurança internacional e com o qual nada se ganhou quanto ao seu suposto objectivo último: a «guerra contra o terror». Só não consegue ver isto quem persevera na inabalável vontade de não querer ver. E em relação a esses, por muito que nos custe, talvez seja melhor desistir. Há limites para aquilo que ainda se pode discutir racionalmente.

Contudo, os restantes têm ainda muito para discutir. Uma das coisas que agora importa perceber é como foi possível que, apesar de todos os atempados avisos - desde a falta de credibilidade dos supostos «factos» que apoiaram a invasão até ao dado indesmentível da ausência de quaisquer planos prévios de estabilização no pós-guerra dignos desse nome -, a defesa da actuação da Administração americana tenha podido parecer tão eficaz, tão empenhada e tão intelectualmente robusta nos meses que precederam a guerra. A desonestidade intelectual com que o debate foi por vezes conduzido (as acusações de «antiamericanismo», «anti-semitismo» ou simpatias «totalitárias» ou «terroristas») não chega como explicação, até porque, reconheça-se, não foi exclusiva de defensores da guerra. A sugestão de que os meios de comunicação social se encontram dominados pela «direita» aqui ou noutros países é tão impossível de comprovar como a acusação inversa. O que poderá explicar, então, o sucesso - mesmo que fugaz - da coligação política e intelectual que apoiou a guerra?

A defesa da invasão do Iraque baseou-se numa combinação nova e quase irresistível de realismo e idealismo, que deixou muitos dos seus opositores prostrados e sem alternativas credíveis. O «realismo» foi visível em algumas constatações simples que nunca chegaram a ser contrariadas de forma convincente: a crise do sistema das Nações Unidas e a desadequação do seu Conselho de Segurança em relação à actual balança de poderes; a fantasia de uma «Europa superpotência» e a sua inoperância para fazer face a ameaças reais à segurança internacional; ou a insuficiência de uma abordagem «legalista» para lidar com o terrorismo. Ao mesmo tempo, um novo «idealismo» forneceu a cereja retórica do bolo. No passado, o realismo conservador conceptualizava os interesses do mundo ocidental como consistentes com qualquer tipo de regime político, autoritário ou não, desde que assegurasse estabilidade, ordem política e uma economia aberta. Desta vez, as categorias tradicionais foram viradas do avesso: foi dos sectores conservadores que ouvimos as mais apaixonadas defesas da «democracia» e o «Estado de direito» como ideais de organização política a difundir pelo planeta, apropriando-se assim de um património anteriormente detido pelas visões ditas progressistas das relações internacionais (os ideais de justiça, democracia e bem comum). A este novo «cocktail» de realismo e idealismo, os opositores da guerra responderam quer com excessivo lirismo (a luta contra o «imperialismo americano» ou contra a «globalização») quer com uma igualmente inadequada defesa do «statu quo» nas relações de poder internacionais e das instituições que o sustentam.

Assim, receio que a autocongratulação com o actual fracasso americano no Iraque ou com a suposta «sensatez» dos avisos europeus - «Os franceses tinham razão», é o título de um recente artigo de Paul Starobin no National Journal - seja, para além de potencialmente imoral, inútil. Ela limita-se a atirar os problemas para debaixo do tapete e a convidar à repetição da história. Uma das coisas que todo este trágico enredo nos ensinou é que, aos opositores da guerra, não bastou ter razão. É também preciso ter uma agenda própria, uma visão da ordem política internacional que seja ao mesmo tempo realista, mas também mais livre e menos injusta. É esse o trabalho de casa que ficou por fazer.
posted by Feyerabend  # 12:16 da tarde

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