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Pedro Magalhães

textos do Público, organizados sem participação do próprio autor

domingo, março 06, 2005

As aparências iludem 

Público, 06 de Março de 2005

O Partido Socialista é um bom primeiro exemplo da forma como as aparências iludem quando olhamos apenas para os resultados eleitorais. Para alguns comentadores e analistas, o facto de o PS ter adicionado várias centenas de milhar de votos ao seu resultado de 2002 tem sido usado como sintoma da criação de uma "nova maioria" socialista ou mesmo de uma "ocupação do centro" ideológico por parte de José Sócrates e do PS.

Contudo, o que este estudo nos mostra é algo bem diferente. Primeiro, cerca de dois em cada três eleitores que votaram no PS de José Sócrates em 2005 afirmam que já tinham votado no PS de Ferro Rodrigues em 2002. E se esta informação parecer eventualmente sujeita a efeitos de contaminação e recordação selectiva que sempre ocorrem em inquéritos deste género, há outros dados mais categóricos. No estudo pós-eleitoral conduzido pelo ICS em Março de 2002, quando solicitados a posicionar-se numa escala de 1 a 10 (em que 1 significa a posição mais à esquerda e 10 a posição mais à direita), a posição média dos eleitores do PS situava-se no ponto 4. Três anos depois, não há diferenças estatisticamente significativas no posicionamento ideológico do eleitorado socialista.

Estes dados têm importantes implicações para a noção de que o PS terá procedido a uma "ocupação do centro". Sócrates até poderá ser mais "centrista" que Ferro Rodrigues. Mas o eleitorado do PS não é menos "esquerdista" hoje do que o era há três anos. A capacidade de ganhar eleições em Portugal parece ter pouco que ver com posicionamentos centristas. Para já, porque o eleitor mediano português não se situa ao "ao centro", mas sim no centro-esquerda. Mas mais importante, porque os eleitores do PS em 2002 já eram, como os de 2005 continuam a ser, os que estão mais próximos de representarem o eleitor mediano em Portugal. Logo, o que fez a diferença de 2002 para 2005 não foi "a ocupação do centro" por parte do PS, mas sim a capacidade de mobilização. Ao contrário daquilo que comummente se presume acerca dos partidos do centro em Portugal, a maior fonte de eleitores do Partido Socialista nas mais recentes eleições (depois daqueles que já tinham votado PS em 2002) não foram anteriores eleitores do PSD, mas sim anteriores abstencionistas, cujas simpatias partidárias e posicionamento ideológico estão, elas próprias, também próximas do PS e do centro-esquerda. Não se quer dizer com isto que as transferências de voto de eleitores do PSD para o PS foram completamente irrelevantes. Todos os votos contam, especialmente quando deles dependeu, provavelmente, a maioria absoluta. Mas a diferença entre a vitória e a derrota não passou por aí. Aliás, o descalabro do PSD tem também, segundo este estudo, bastante menos a ver com "transferências" para o PS do que com a soma de eleitores perdidos quer (principalmente) para a abstenção quer (em menor grau) para o CDS-PP.

O CDS-PP constitui um segundo exemplo da forma como os resultados eleitorais podem iludir, desta vez no sentido de ocultarem transformações bem mais profundas do que parecem à primeira vista. É certo que os casos dos partidos mais pequenos são mais difíceis de apreciar com amostras de dimensão relativamente reduzida como aquela que foi usada neste estudo. Contudo, tendo esta limitação em mente, o que os resultados do inquérito revelam é que as diferenças entre os eleitorados do CDS-PP em 2002 e 2005 são de tal forma vincadas que nem o erro amostral lhes retira significância estatística. Em 2002, segundo o já citado estudo do ICS, o eleitorado popular repartia-se de forma mais ou menos equitativa por meios rurais e urbanos. Cerca de metade dos eleitores do partido viviam em agregados familiares com rendimentos inferiores a 750 euros, enquanto menos de dez por cento tinham instrução universitária. Contudo, em 2005, tudo isto mudou. Os eleitores do PP em Fevereiro passado tornaram-se predominantemente urbanos, altamente escolarizados e com elevados níveis de rendimentos. Assim, em rigor, apesar da descida percentual do CDS-PP a nível nacional ter sido relativamente reduzida, a transformação do seu eleitorado foi tão dramática que parecemos estar perante um partido completamente diferente.

Como sucedeu este realinhamento eleitoral? Apenas um terço dos votantes do CDS-PP em 2005 declaram ter votado no mesmo partido em 2002. Os restantes abandonaram-no, dispersando-se em 2005 por quase todas as restantes opções possíveis. Contudo, esta sangria foi compensada pelo facto de o PSD ter fornecido mais de um terço dos novos eleitores do CDS-PP. Por outras palavras, desertado por muitos eleitores, precisamente aqueles que pertenciam aos estratos sociais mais desfavorecidos (ou seja, os mais susceptíveis de terem sido afectados pelas políticas de contenção orçamental), o CDS-PP foi invadido por eleitores de elevado estatuto socio-económico que, apesar de anteriormente terem votado no PSD, estiveram desta vez indisponíveis para entregar o seu voto a Santana Lopes. O que isto significa para o futuro do CDS-PP é algo que, possivelmente, Paulo Portas terá compreendido na noite do passado dia 20 de Fevereiro.
posted by Feyerabend  # 11:34 da manhã

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